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LUTO E LUTA EM MEMÓRIA DE ALDENOR TIKUNA
29/04/2020 20:42 em Novidades

 

O sentimento é de revolta e indignação.

Os povos indígenas em contexto urbano estão esquecidos durante essa pandemia, justamente quando mais estamos fragilizados.

Porém, na época da campanha eleitoral, estavam todos lá, levando seus mutirões de saúde, suas dentaduras, seu asfalto, suas carreatas.

E qual é mesmo o papel da SESAI ?! Saímos das aldeias, mas trazemos nosso território em nosso corpo e no nosso espírito.

Apesar de ser uma política de Governo o nosso extermínio, nós sobrevivemos.

 

Para nós, povos indígenas, estarmos vivos é um ato de rebeldia.

Precisamos de atenção nas aldeias e na cidade, especialmente nas periferias, onde fizemos morada.

Por todo o país, povos indígenas sofrem com a invisibilidade.
Nos centros urbanos, não temos o direito nem de escrevermos a nossa etnia nos prontuários de atendimento.

Os brancos podem se envergonhar de quem são, nós não.

Manaus não dá para esconder. São mais de 30 mil indígenas morando na cidade, disputando leitos de morte no SUS.

Não dá pra brincar de ser índio só na época do boi.

 

O vírus está na minha comunidade Wotchimaücü, todos os meus irmãos estão doentes.

Para contribuir, fizemos uma campanha on line de financiamento coletivo,

para ajudar a comunidade a superar esse momento de dificuldades,

pois, praticamente todas as famílias vivem da venda de artesanato nas feiras.

 

Hoje morreu um mestre do povo Tikuna em Manaus, vice-cacique, professor Aldenor Basques Félix Gutchicü,

pelos sintomas, possivelmente mais uma vítima do Covid-19, associada a outros males, inclusive, a falta de assistência.

Babu como era carinhosamente chamado, foi um dos precursores do Curso de Pedagogia Intercultural da UEA

e responsável por a primeira geração de crianças Tikuna, nascidas em Manaus, ter a oportunidade de estudar

e aprender a sua língua materna. Também era um grande entusiasta da nossa cultura, músico autodidata,

compomos juntos algumas canções que falam do sagrado.

 

Aldenor não merecia esse triste fim, morrer dentro do Uber, longe da sua família,

que está no Alto Solimões e a comunidade chorando de longe sem poder se despedir.

Babu esbanjava um sorriso de luz.

Amanhã sentirei saudades, hoje só consigo sentir dor, indignação e revolta.

 

POR DJUENA TIKUNA

FOTO: DIEGO JANATÃ / ASSOCIAÇÃO COMUNIDADE WOTCHIMAÜCÜ

 
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