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CONVERSA ABERTA SOBRE LITERATURA INDÍGENA
12/04/2019 15:10 em Novidades

Um encontro de gerações e representatividade marcou a palestra com os escritores indígenas Eliane Potiguara, Kaka Werá e Denizia Kariri Xocó que participaram da abertura do projeto Indígenas.Br, que aconteceu no último dia 10, no Centro Cultural Vale Maranhão.
Uma programação envolvendo literatura, áudio visual e ativismo digital em debate no centro histórico da capital maranhense, durante as datas de 10 a 13 e 23, 26 e 27 de abril.  

Os parentes também realizaram “Contação de Histórias” e divulgaram seus recentes trabalhos para um público muito especifico e participativo, formado, em sua maioria, por professores das séries infanto-juvenis.

De acordo com Paula Porta, curadora do Indígenas.br, a programação tem o objetivo de dar visibilidade a produção indígena que, segundo ela, é pouco divulgada. “A literatura e a produção audiovisual vêm ganhando peso em número de criadores e, principalmente, em qualidade, despertando crescente interesse e ganhando prêmios”, destacou a diretora do espaço.

 

ESCRITORES INDÍGENAS - Eliane Potiguara é uma das mais reconhecidas escritoras indígenas do país. Também é poeta, professora, mãe e avó. Iniciou suas atividades ainda na década de 80, com a criação da rede de mulheres indígenas Grumim. A autora foi nomeada Embaixadora da Paz por instituição ligada à ONU – Organização das Nações Unidas. A parenta também fez parte da criação da Carta da Terra, lançada por diversos movimentos sociais durante a Eco 92.


Durante sua palestra, Eliane destacou a participação dos povos indígenas dentro dos processos de criação artística. “A dança, os cantos são a maior expressão da espiritualidade indígena. Através das danças que entramos em contato com nossos ancestrais. No momento que estamos mais sublimes e nossa mente sobe e nos conectamos com esse mundo fantástico, imaterial, cosmológico”, afirma Potiguara.


Para Eliane nós povos indígenas continuamos “invisibilizados”, pois temos muito pouco espaço para as nossas questões. “Temos todos os materiais artísticos para mostrar para a sociedade o que transformamos em arte indígena. Com respeito a tudo isso, nós buscamos a autodeterminação, queremos continuar sendo quem somos”, afirma Eliane Potiguara.


Kaká Werá descende do povo Kaxixó e faz parte da primeira geração de autores indígenas, que ousaram colocar na escrita a nossa tradição construída pela oralidade.  Kaká morou mais de 10 anos com os Guarani em São Paulo e é considerado um dos mais influentes autores da literatura indígena. O parente explica a importância das nossas artes para a militância e ativismo. “Durante muitos anos, nossos ancestrais têm lutado pela preservação das suas culturas, mas dentro dos tempos atuais eu vejo as artes como uma ferramenta de luta, como uma ação política capaz de mobilizar e sensibilizar a sociedade não indígena para nossa causa, nossos valores, porque nossa causa não é só nossa, ela diz respeito à manutenção do equilíbrio da terra e, consequentemente, a sobrevivência da humanidade”, explicou o parente que, além de escritor, desenvolve trabalhos ligados à fitoterapia, integrada aos conhecimentos indígenas.


Sobre a literatura, Kaká defende que ela é uma forma de se fazer valer nossa expressão, como uma pintura corporal. “Existia um questionamento da antropologia dizendo que não podíamos escrever, pois nossa tradição indígena é oral. Mas essa oralidade pode ser transposta para literatura por vários motivos. Ela nos dá autoridade e é um caminho de nos fazer compreendidos, ela pode ser tão potente e eficiente como uma flecha de atingir nossos objetivos. Acredito na literatura como uma ferramenta de resistência e transmissão de valores”, ensina o parente.


Representando a nova geração de autores indígenas, a parenta Denizia do povo Kariri-Xoxó, traz em suas palavras a luta do seu povo e os ensinamentos dos seus ancestrais. Alinhando versos e canções a autora trouxe para São Luís o seu mais recente trabalho que aborda os contos do seu povo, além de brincadeiras, espiritualidade e muita cantoria.


“Dizem que a sociedade tem apenas 1% do nosso povo, mas somos nós quem sustentamos a questão espiritual, ambiental e cultural. Se você pegar qualquer povo, ele lida com a arte e a ancestralidade, se eu descartar a arte, estou descartando a minha resistência e do meu povo que através da comunicação da arte conseguiu. A arte hoje é tudo, para qualquer povo. A arte na essência do fazer, do cuidar, do ser, do se comunicar, de como é o universo, de como é essa coisa ancestral e espiritual”, explicou a parenta Kariri-Xocó.


OUTRAS EXPRESSÕES –
Além da literatura indígena, o Indígenas.BR também traz para São Luís grandes nomes do audiovisual indígena, como o documentarista Kamikia Kisêdjê que vai apresentar em uma Mostra o seu trabalho. Kamikia é um dos mais ativos documentaristas no movimento indígena, registrando a vida e a luta, especialmente dos parentes do Xingu.


O evento também abre espaço para os comunicadores indígenas, que vão fazer uma conversa aberta para falar dos seus trabalhos relacionados ao ativismo digital e a comunicação indígena. Representando a Rádio Yandê, a primeira rádio on-line, o parente Anápuaká Tupinambá divide o espaço com o Youtuber Cristian Wari’u  e, representando a Mídia Índia, Erisvan Guajajara, Priscila Tapajowara, Maria Helena Gavião e Bruno Krikati.

 

TEXTO: DJUENA TIKUNA
FOTOS: JANATà

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